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Alteração da Via Lixeiros, Ana Chata - Posição CAP

Escaladores indignos alteram a Via dos Lixeiros

“Conquistada em 1989 por Adalbert Kolpatzik e Galba Ataíde, é um bom exemplo de via clássica nesta montanha. A via dos Lixeiros, foi reformada em 1997 e sua grampeação se encontra em perfeito estado. É uma rota recomendada para quem está se iniciando a guiar, pois é bem protegida e transcorre por mais de 200m de escalada de dificuldade média.”

In: https://www.webventure.com.br/via-dos-lixeiros/

Temos viva memória, eles iam e voltavam da Ana Chata, o dia inteiro pendurados naquelas cadeirinhas e peitorais feitos com fitas ou cordins, desconfortáveis, mosquetões e pitons à antiga, cordas de 12mm com 40m pesadas, martelo e batedores feitos “em casa”, toscos grampos de expansão, estribos de alumínio e, para coroar, as botas de couro e sola Vibram, duras e pesadas. Em 1989, Adalbert Kolpatzik (Adi) e Galba Athaíde trabalhavam na abertura da Via dos Lixeiros[1].

Nós, um pouco mais novos, com Max Haim, Alex Ventre, Edison, depois Adriano Petracchi, Alex Cymbalista, Rosita Belinky, Cris Baran, Ozzy (Alexandre Dupont), Lui, Cícero Vieira, Renato Affonso e tantos outros que a memória falha agora não permite nomear, seguíamos os passos daqueles dois veteranos escaladores-aventureiros. Nas noites frias, dentro do refúgio velho do Clube Alpino Paulista (CAP) dentro da Fundação Pedra do Baú, todos partilhavam as histórias das ‘roubadas’ do dia nos trabalhos de abrir as vias tornadas clássicas no complexo do Baú.

A conquista da Lixeiros na Ana Chata era mais uma no leque de conquistas que a dupla ‘alemão e mineiro’ empreendiam pelas montanhas. Tinham muitas outras no currículo. Muitas!

Duas que vale a pena citar: a abertura da trilha da Serra Fina, com vários outros membros do CAP e a conquista do Pico da Neblina, com Michel Bogdanovich. Aqueles dois não paravam nunca -  nesta época, escalavam juntos havia vinte anos.

Todas as vias que eles abriram tornaram-se clássicas. Uma razão óbvia para tanto? Eles escalavam com botas rígidas de couro, bem à moda das usadas no verão nos Alpes.

À época já existiam as primeiras sapatilhas (os EB), porém, eles estavam mais que habituados ao peso e à rigidez das velhas botas, logo, por que mudar?

Em geral, ascendiam no máximo ao 5º grau. Raramente conseguiam um 6º. Dificuldades maiores eram resolvidas com grampeação intensa e estribos. Essa era a prática na Europa e eles a usavam à larga.

Conhecer essas histórias nos permite entender a qualidade das vias bem como reconhecer que o que fazemos hoje é resultado de processos maiores daqueles que cada um de nós vive singularmente.

Ontem recebemos uma triste notícia: “escaladores” retiraram as proteções dos metros iniciais da Lixeiros. Segundo a inferência de alguns amigos, se deve à atual ‘facilidade’ de percorrer o mesmo trecho com proteções móveis.

Por certo, se comprovada a tese, quem fez isso não conhece a história e não se preocupam em saber o que tinham em mente seus conquistadores; não sabem o que motivou aquela linha ascensional; não sabem quais foram as condições da conquista; não reverenciam o passado e tampouco querem aprender com ele.

Porque pensam que o mundo começou com o seu nascimento, quem destruiu as proteções do início da Lixeiros, não importa a idade, são pessoas que acreditam que as suas capacidades são a medida única para tudo e todos.

Os outros inexistem (novatos, pessoas menos treinadas...) - para quê proteções fixas se ‘eu’ posso com móvel.

Conquistadores da Lixeiros, Adi e Galba, infelizmente, já se foram há muito.

A prática do montanhismo requer regras e procedimentos reconhecidos e respeitados por todos aqueles que pretendem seriedade, profissionalismo, segurança e condições ambientais preservadas. Logo, o montanhismo possui ética.

O ethos do montanhismo está fundado no respeito aos que nos antecederam. E cabe aos seus sucessores o cuidado e manutenção de sua obra.

Os familiares desses dois grandes escaladores do passado estão ativos no montanhismo? Não. Então sua obra é de domínio público? Não.

Quando vivos, ambos integraram ativamente o Clube Alpino Paulista e, portanto, a sua obra está sob a nossa responsabilidade.

Qualquer demanda envolvendo suas conquistas devem ser avaliadas e decididas pelos atuais membros e dirigentes da instituição.

Como nos ensinava Domingos Giobbi, fundador do CAP, um montanhista resulta da melhor relação entre físico preparado, técnica apurada e reto caráter. Esses “escaladores” destruidores da obra de outros podem ter técnica, contudo não são éticos.

Mais do que nunca, é no enfrentamento às violências, como essa perpetrada na Lixeiros, que entendemos a importância de nossas instituições representativas. Somente através de nossos Clubes, Associações, Federações e Confederação que podemos entrever modos de contenção de atos irresponsáveis e antiéticos como o praticado.

Apenas com entidades de montanhistas fortes e atuantes podemos nos unir no sentido de formar novos montanhistas dignos desse título e normatizar a nossa prática esportiva para, ao nos deparar com vandalismos como o praticado na via do Adi e do Galba, acionar a justiça para punir quem fez isso.

Em total observância aos princípios éticos norteadores do montanhismo e ao que foi estabelecido no Seminário da Federação de Montanhismo de São Paulo (FEMESP) em São Bento do Sapucaí, em 2009, o Clube Alpino Paulista não admite que escaladores alterem qualquer via sem prévio consentimento de seus conquistadores ou de sua entidade representativa.

O montanhismo como qualquer outra atividade humana está em constante evolução. Equipamentos e técnicas evoluem. Por isso, sabemos que as condições de escalada de vias clássicas se alteram de modo contínuo.

Se há necessidade de adequar velhos traçados, alterar paradas, acrescentar ou remover fixações, que autores e instituições responsáveis dialoguem e coloquem em debate demandas atuais. Democracia, participação, escuta e coletividade não são palavras estranhas à ética do montanhismo.

O CAP está de portas abertas para conversar e avaliar todas as demandas sobre as vias de escalada onde quer que elas estejam. Não nos procurar e agir sobre elas sem o nosso conhecimento e consentimento é invasão imperdoável!

Quem cometeu a irresponsabilidade de alterar as condições originais do início da Via dos Lixeiros na Ana Chata (Complexo da Pedra do Baú) deve ser chamado à responsabilidade, se possível sofrer penalidade e, no menor prazo possível, reinstalar todas as proteções.

 

São Paulo, 03.05.2021

 

Fabio Alberti Cascino

Presidente do Clube Alpino Paulista

 

[1] Segundo Eliseu Frechou: “a reforma iniciou em 93 mas terminou em 95, quando eles ainda eram vivos, o que demonstra a total concordância com a reforma”.